Bem x Bom

Bem x Bom

Uma ideia que me encanta em Spinoza é a diferenciação que este faz entre o Bem e o Bom.
Bom é aquilo que nos afeta de uma forma positiva, em linguagem spinozista, que aumenta nossa potência de agir. Em contrapartida, mau (com U) é aquilo que nos afeta de forma negativa, diminuindo nossa potência de agir.
O problema surge quando se quer transformar aquilo que é bom (ou seja, algo do campo individual) em BEM (universal), e similarmente o mau em MAL (com L).
Por exemplo, o português vive em um ambiente de clima mais ameno, para ele é BOM vestir-se com muitas roupas, a moral portuguesa entende que andar com muitas roupas é um BEM, portanto universal. Então quando o português pega o navio e chega ao Brasil, onde o clima é quente e os nativos andam sem roupa, o que ele faz? Ele veste o índio. Mas o que é BOM para o português, não é BOM para o índio.
Quantas vezes nos submetemos à padrões que não são bons para nós porque o julgamos como um Bem?
Spinoza nos dá um verdadeiro presente com esta noção filosófica que, se bem usada, pode ser libertadora.

8 OU 80: A Régua de Dois Números e o Borderline

8 OU 80: A Régua de Dois Números e o Borderline

Existe a tendência no paciente borderline em ser o famoso ‘8 ou 80’, em dividir as pessoas, as experiências e a si mesmo ou como totalmente bons ou totalmente maus.

Em psicanálise chamamos este mecanismo de cisão (ou splitting, ou clivagem), e atua como uma defesa a sentimentos ambivalentes.

Deixando um pouco de lado os termos técnicos, gosto de pensar este mecanismo como uma régua, mas não uma régua qualquer. Trata-se de uma régua de dois números, que o indivíduo usa para medir o mundo e a si mesmo. No topo da régua encontra-se o “número” bom, perfeito, excelente, etc.; já na parte inferior encontra-se o “número” ruim, péssimo, pavoroso, etc. É com este sistema métrico que o paciente borderline mede a si mesmo e o mundo.

Não é preciso dizer que uma régua dessa é imprecisa e o julgamento a partir dela explica, em partes, o porquê dos pacientes com este diagnóstico serem tão impulsivos e intensos em seus sentimentos.

É função da psicoterapia pintar novos números nesta régua, a fim de que o paciente tenha uma percepção mais adequada de si mesmo, da realidade e das pessoas que o cercam.

O que é o Transtorno de Personalidade Borderline?

O que é o Transtorno de Personalidade Borderline?

Primeiro cabe explicar o que é um Transtorno de Personalidade: trata-se de uma classe de transtornos mentais caracterizada por padrões de interações desviantes, trazendo prejuízos ao seu portador. Muitas vezes os sintomas deste tipo de transtorno é ego-sintônico, ou seja, são vivenciados como aspectos reconhecido como sendo da própria identidade do indivíduo.

Dito isto, podemos entrar na questão Borderline: trata-se de um transtorno mental caracterizado pela impulsividade e irritação. Trazendo como sintomas o medo do abandono, labilidade de humor, problemas de auto-estima, dificuldades de relacionamento (amoroso ou não), entre outros.

No que diz respeito ao tratamento é fortemente recomendado o acompanhamento de um psiquiatra e de um psicólogo.

O objetivo deste texto foi introduzir o tema dando uma visão geral. Outros textos serão publicados trabalhando outras questões dentro desta temática.

IMPORTANTE: NÃO SE AUTO-DIAGNOSTIQUE. Quando se fala em transtornos mentais é muito fácil se identificar com alguns sintomas e cair na tentação de fazer o próprio diagnóstico. O diagnóstico é algo sério e deve ser feito por um profissional habilitado.

Você tem valor? Ou é apenas útil?

Você tem valor? Ou é apenas útil?

Em termos filosóficos útil é aquilo cujo valor encontra-se fora do objeto. Por exemplo, um carro é útil porque nos desloca de um lugar a outro, no dia em que ele deixa de fazer isso o mandamos ao ferro velho. Isso quer dizer que o valor do carro reside em sua função, o deslocamento que ele nos permite, e não em si próprio.

Quando alguém se coloca no mundo APENAS como útil, dispostos a ajudar a todos, abrindo mão das próprias necessidade e prioridades. Pode-se dizer que, seguindo esta linha de raciocínio, não se está reconhecendo o próprio valor e por isso se investe maciçamente em funções, tornando-se, muitas vezes, um canivete suíço humano.
Pessoas com dificuldade de falar não e impor limites aos outros, deixando-se sempre ser usado, muito provavelmente, têm grandes dificuldades em fazer este reconhecimento.

Quanto menor o reconhecimento do próprio valor, maior a necessidade em ser útil.

Destino, Fuga e Encontro

Destino, Fuga e Encontro

Na tragédia grega, “Édipo Rei”, o protagonista título vai ao oráculo (um adivinho da época), que lhe faz a seguinte revelação: seu destino lhe reservaria o assassinato de seu pai e a tomada de sua mãe como esposa. Desesperado Édipo foge da cidade, acaba por encontrar uma caravana, transtornado, Édipo mata à todos seu viajantes. Chega à outra cidade onde se casa com a rainha, tornando-se rei. Por fim, após muitos anos, Édipo descobre que fora filho adotivo, e que matara a seu legítimo pai, o rei, na ocasião da caravana, e se casara com sua mãe, a rainha. Por fim, o oráculo estava certo, Édipo cumprira seu destino.

Nos deparamos com um interessante paradoxo: ao tentar fugir de seu destino, Édipo acaba por ir ao seu encontro.
Embora a tragédia de Édipo tenha mais de dois milênios, pode-se dizer que ainda é contemporânea. E tal como o exemplo de nosso herói, se continua fugindo do destino, ou então, quando se tem algum poder, cortando a cabeça do oráculo, crente de que se não estiver vendo, estará a salvo.
Quem não conhece alguém que vive trocando de emprego e, não importando a empresa ou a função, a pessoa sempre acaba insatisfeita como no primeiro compromisso profissional? Ou alguém que vive trocando de pareceiro(a) sempre pelas mesmas razões?
Na medida em que não compreendemos nossos verdadeiros desejos, motivações, frustrações, medos, etc. nos tornamos vítimas fáceis de um destino que se repete impiedosamente.

“Tudo aquilo que não enfrentamos em vida acaba se tornando o nosso destino” (Jung)