Sobre as mudanças

O problema das mudanças é que a gente simplesmente as espera acontecer.
Esperamos acordar um dia mudados, como se durante a noite algum anjo tivesse operado nossas almas.

Ficamos ansiosos aguardando o dia em que seremos mais fortes, mais felizes, menos preguiçosos…
Você já é adulto, tenho certeza de que não espera mais Papai Noel chegar na noite de Natal. O que faz esperançoso de que a mudança vai chegar só porque você foi um bom(oa) menino(a) durante o ano?

A mudança é uma construção, um pensar diferente que, de repente, se tornou uma ação diferente, que teve resultados diferentes e, depois de constatado que o mundo não acabou MESMO, torna-se uma parte de você.
Como pode alguém desejar a mudança se não está disposta a enfrentar o desconhecido? Como pode alguém desejar a coragem se não está disposto a enfrentar o próprio medo?

Voar mais alto aumenta o dano em caso de queda. Nadar mais fundo aumenta a chance de afogamento. Se quiser coisas maiores, terá que correr maiores riscos. Você não pode almejar o pódio se não estiver disposto a soar a camisa.

O Surto da Baixa Auto Estima

 

É muito comum hoje em dia ouvir as pessoas se queixarem de baixa auto estima, trata-se de um verdadeiro “surto”. Mas será que as pessoas sabem mesmo do que estão falando?

Auto significa ‘próprio’, ‘si mesmo’; já estima é atribuição de respeito e de valor. Logo, auto estima é o valor e o respeito que atribuímos a nós mesmos.

O que existe hoje é uma grande exposição nas redes sociais, onde não somos apenas os produtos na grande vitrine virtual como, também, espectadores de vitrines alheias, nos fazendo comparar cada vez com os outros.

Se estou sedentário vejo fotos de pessoas na academia, se estou estagnado no mesmo trabalho há anos, vejo pessoas comemorando promoções profissionais. O que dá a sensação de que a vida de todo mundo “dá certo”, enquanto a minha não sai do lugar.

Estas comparações fazem com que nossa auto cobrança aumente, nos fazendo crer que devemos ser perfeitos em todos os aspectos de nossas vidas. Diante de uma exigência tão impraticável nos sentimos incapazes, inúteis, imprestáveis… em suma, nossa percepção de valor próprio desaparece.

As redes sociais são verdadeiros palcos, onde se expõe aquilo que é bom, deixando as coisas não tão boas nos bastidores. O que acontece é que nós comparamos nossos bastidores com o palcos do vizinho.

Cada pessoa possui suas prioridades e objetivos, não é possível comparar o valor de uma pessoa com o de outra, é como comparar uma camisa com uma mesa. Vale lembrar que estas comparações pode nos afastar de nossa verdadeira essência, nos levando a cumprir as expectativas do mundo, não as nossas.

 

Bem x Bom

Bem x Bom

Uma ideia que me encanta em Spinoza é a diferenciação que este faz entre o Bem e o Bom.
Bom é aquilo que nos afeta de uma forma positiva, em linguagem spinozista, que aumenta nossa potência de agir. Em contrapartida, mau (com U) é aquilo que nos afeta de forma negativa, diminuindo nossa potência de agir.
O problema surge quando se quer transformar aquilo que é bom (ou seja, algo do campo individual) em BEM (universal), e similarmente o mau em MAL (com L).
Por exemplo, o português vive em um ambiente de clima mais ameno, para ele é BOM vestir-se com muitas roupas, a moral portuguesa entende que andar com muitas roupas é um BEM, portanto universal. Então quando o português pega o navio e chega ao Brasil, onde o clima é quente e os nativos andam sem roupa, o que ele faz? Ele veste o índio. Mas o que é BOM para o português, não é BOM para o índio.
Quantas vezes nos submetemos à padrões que não são bons para nós porque o julgamos como um Bem?
Spinoza nos dá um verdadeiro presente com esta noção filosófica que, se bem usada, pode ser libertadora.

8 OU 80: A Régua de Dois Números e o Borderline

8 OU 80: A Régua de Dois Números e o Borderline

Existe a tendência no paciente borderline em ser o famoso ‘8 ou 80’, em dividir as pessoas, as experiências e a si mesmo ou como totalmente bons ou totalmente maus.

Em psicanálise chamamos este mecanismo de cisão (ou splitting, ou clivagem), e atua como uma defesa a sentimentos ambivalentes.

Deixando um pouco de lado os termos técnicos, gosto de pensar este mecanismo como uma régua, mas não uma régua qualquer. Trata-se de uma régua de dois números, que o indivíduo usa para medir o mundo e a si mesmo. No topo da régua encontra-se o “número” bom, perfeito, excelente, etc.; já na parte inferior encontra-se o “número” ruim, péssimo, pavoroso, etc. É com este sistema métrico que o paciente borderline mede a si mesmo e o mundo.

Não é preciso dizer que uma régua dessa é imprecisa e o julgamento a partir dela explica, em partes, o porquê dos pacientes com este diagnóstico serem tão impulsivos e intensos em seus sentimentos.

É função da psicoterapia pintar novos números nesta régua, a fim de que o paciente tenha uma percepção mais adequada de si mesmo, da realidade e das pessoas que o cercam.