Sobre Dúvidas e Escolhas

Sobre Dúvidas e Escolhas

Com alguma frequência recebo clientes para Orientação Vocacional Profissional que chegam muito certos acerca de suas escolhas profissionais, dando pouca abertura para pensar em outras carreiras. Buscam o serviço apenas “para confirmar” a escolha, o que já caracteriza uma contradição: por que algo tomado como certo precisaria ser confirmado?

Para esses orientandos eu costumo citar o filme “O Palhaço”, que conta a história de um homem melancólico que fora palhaço a vida toda, que decide viver uma vida comum na cidade, abandonando a vida itinerante do circo.

Ao se permitir viver essa experiência ele se dá conta de que ser palhaço era o que ele realmente gostava. Regressa ao circo, onde deixa de ser melancólico. O circo não mudou, é o mesmo, quem mudou foi ele, pois agora ele sabe o que ele realmente quer. E ele só descobre isso porque se permitiu experimentar algo diferente.

Aplicando isso aos meus orientandos, quando eles chegam muito certos do que querem, não estão se dando a oportunidade de “sair do circo” e pensar em novas possibilidades, restringindo muito o campo de visão no momento em que justamente deveriam estar abrindo, a fim de tomar uma decisão acertada.

Uma forma (uma, não a única) mais profunda de se interpretar essa resistência em abrir-se à novas possibilidades é que esta seja causada, na verdade, por uma forte dúvida não aceita, em função da não aceitação é convertida em uma rígida e inabalável, porém falsa, certeza. Afinal, quando tenho certeza de algo, não temo testá-la, pois tenho a convicção de que, por ser certa, ela prevalecerá no final.

Claro que essa reflexão não se limita apenas à escolha profissional, podemos estendê-la a qualquer outra escolha significativa.

Só podemos sanar verdadeiramente as dúvidas que nos permitimos sentir. Caso contrário corremos o risco de acabar como palhaços melancólicos.

Patinando sobre a fina camada de gelo: Uma breve reflexão sobre o que estamos fazendo com nossas vidas

Ralph Waldo Emerson, poeta e filósofo do século XIX, certa vez definiu a modernidade a partir da seguinte metáfora: 57
“um andarilho que corre sobre uma fina camada de gelo. Ele não tem um destino certo. Mas sabe que, se parar, o piso racha e morre afogado”.

Esta metáfora está ainda mais viva nos dias de hoje, vivemos em uma sociedade que cada vez exige mais: mais trabalho, mais consumo, mais saúde… Por isso vivemos correndo, apressados, mesmo que sem conhecer, ao certo, o nosso destino.
Bauman propõe a noção de viver-para-o-depósito-de-lixo, querendo dizer que ao invés de a vida dirigir-se para a morte, ela se dirigiria para uma fase de inutilidade, fase em que não se consome nem se produz mais, não se é mais “útil”. Em outras palavras, a não produção/consumo seria a “morte” em vida.

socDessa forma criamos um verdadeiro fetiche em estarmos sempre empenhados em questões concretas, seja um trabalho que estejamos fazendo, seja a escolha de uma roupa que estejamos comprando. Tornamo-nos seres fascinados pela produção e, muitas vezes, esquecemos de nossos aspectos internos e subjetivos, estes nos parecem vãos, insossos e sem sentido, julgamos perda de tempo olharmos para eles. Justamente porque se pararmos para pensar em tais questões poderemos quebrar a fina camada de gelo que nos sustenta e cairmos nas águas profundas de nossa própria identidade.
A questão é: patinaremos em círculos para sempre sobre a superficial superfície do chão de gelo ou aprenderemos a mergulhar nas profundas águas debaixo deste?

Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro despertaJung